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terça-feira, 26 de maio de 2015

Cartas escritas à mão se tornam relíquias nos dias de hoje

Segundo o Correiros, o volume de correspondências por pessoas físicas diminuiu 70%
Cartas escritas à mão se tornam relíquias nos dias de hoje
Escrever é a preferência da universitária Larissa Bittencourt, que não gosta de computador - Foto: Pamella Cajano/RRJ
 PAMELLA CAJANO
Com a chegada da internet no Brasil, na década de 90, o hábito da escrita se reinventou. Antes, para se comunicar com parentes distantes, era preciso telefonar (para quem tem uma linha) ou recorrer a um hábito milenar: escrever cartas.

Ainda que demorasse a chegar ao destino, um pedaço de papel com palavras escritas a caneta ou a lápis era responsável por manter as pessoas informadas sobre a vida de amigos e de familiares. Também servia para fins comerciais. Mas, nos dias de hoje, se tornou raridade, já que é pouco vista circulando entre as casas.

A redução do envio de cartas é atestada pelos Correios. Segundo a empresa, o volume de correspondências entre pessoas físicas diminuiu cerca de 70%. A maioria delas, atualmente, são boletos bancários, contas telefônicas e de luz, revistas e propagandas enviadas por mala direta. 

No entanto, aumentou o volume de correspondências empresariais e de encomendas. Isso aconteceu justamente por causa da internet que fez crescer o comércio online, com a compra e venda de produtos por meios eletrônicos. Mas quem entrega ainda é o carteiro.

Segundo Adriana Manfredini, da Diretoria Regional dos Correios em São Paulo, em toda a história da empresa a demanda de cartas comerciais sempre foi maior do que a de cartas para fins pessoais, mas ela diz ser complicado mensurar o número de correspondências pessoais que são entregues, já que hoje o sistema é todo digitalizado e não processa essa leitura.

“Era mais fácil quando o trabalho era feito à mão. Os carteiros conseguiam ver quais cartas eram comerciais e quais eram de ‘pessoa física’ e assim tínhamos certo controle”. Ela ainda lembra que somente nos períodos de fim de ano há um aumento na demanda de cartas pessoais.  “Papai Noel é o responsável por esse aumento”.

O carteiro Diogo Zanini, 39, confirma essa tendência. Do volume que ele entrega diariamente pelo centro de São Bernardo, apenas 1% são cartas direcionadas a assuntos pessoais. “Já cheguei a sair com duzentas cartas para serem entregues e apenas uma no meio delas era física”, disse Zanini, na profissão há 11 anos.
MODA ANTIGA


Mas há quem considere que a carta manuscrita ainda é um meio carinhoso de comunicação com as pessoas amadas. A aposentada Zenita Fernandes, 67, disse que escreve e recebe cartas dos filhos e netos.

Ela escrevia mais. Inclusive cartas de amor para o marido, que já morreu. “Depois que ele se foi, já não sei mais o sabor de ler uma carta romântica”. Zenita contou que, mesmo em curtas viagens, os dois não deixavam de escrever um para o outro. Detalhe: todas as cartas do amado estão guardadas.

Mas o hábito de escrever cartas também é visto em outras gerações. Para a universitária Larissa Bittencourt, 20, a internet não é tudo. Ela contou que adorara escrever cartinhas de amor para o namorado, Gustavo. E que a troca de correspondências entre os dois ajudou a iniciar o namoro. “Decidi não deixar morrer a forma que nos levou ao namoro, escrever à mão é como se estivéssemos frente a frente.”

Larissa afirmou também que o namorado se apaixonou pelo perfume que ela colocava nas cartas, mas que no fundo ele gostava mesmo era de outra parte da correspondência. “A primeira frase que ele me disse quando nos vimos é que minha letra era linda. Será que algum computador faria isso por mim?”

A universitária disse que nunca deixará de escrever cartas, porque acredita que a internet distanciará cada dia mais as pessoas.

Ela ainda falou que por mais que o e-mail e as redes sociais sejam mais práticos não substituem a emoção de receber uma correspondência, porque sente que as pessoas que escrevem para ela capricham até na letra. 

*Esta reportagem foi produzida por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo
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